· Allan Lancioni
Como entrar no mercado de TI: ser desenvolvedor no Brasil
Você provavelmente já ouviu de alguém o famoso conselho: “Entre para a área de tecnologia.”
Ou então o clássico: “Fulano entrou para TI e está ganhando muito bem.”
A ideia ficou na sua cabeça. Você pesquisou sobre o assunto, decidiu dar o primeiro passo e então percebeu que não sabia por onde começar.
Faculdade ou estudo por conta própria? Qual tecnologia aprender? Que linguagem escolher? Como conseguir o primeiro emprego? Como evitar vendedores de cursos que nem sequer trabalham como desenvolvedores? É preciso saber inglês? Você será o próximo Elon Musk?
Não, provavelmente você não será o próximo Elon Musk.
Mas pode viver bem trabalhando com tecnologia no Brasil. Melhor ainda, pode encontrar um trabalho de que realmente goste.
Estou há bastante tempo no mercado e posso afirmar que desenvolver software pode ser leve, interessante e divertido. Também é verdade que a área paga bem e oferece muitas oportunidades, principalmente para quem ama o que faz.
A proposta deste artigo é compartilhar minha visão sobre algumas das perguntas que mais escuto de quem está tentando entrar na área.
Faculdade, o maior tabu#
Curso superior não é um requisito universal para trabalhar com desenvolvimento.
Na maioria dos processos seletivos, as empresas estão mais interessadas no que você sabe fazer do que no diploma que possui. O conhecimento oferecido pela faculdade nem sempre é imediatamente prático, e muitas pessoas conseguem entrar no mercado mais rápido estudando conteúdos específicos por conta própria.
Isso não torna a faculdade inútil.
Em algum momento da carreira, você precisará de fundamentos teóricos. Se não os aprender numa graduação, terá de buscá-los por outros caminhos. Estruturas de dados, algoritmos, arquitetura, sistemas operacionais e redes não deixam de existir porque você decidiu estudar sozinho.
A faculdade também pode melhorar seu currículo e facilitar o acesso às primeiras oportunidades, principalmente quando você ainda não tem experiência profissional.
Minha entrada no mercado aconteceu antes de eu concluir minha formação. Aos 18 anos, consegui meu primeiro emprego na área. O que abriu aquela primeira porta não foi um diploma, mas aquilo que eu já conseguia demonstrar na prática.
Faculdade pode ajudar. Só não é o único caminho.
E sendo honesto aqui, pra quem não tinha experiência prévia, o nome FATEC deu uma forcinha.
O estudo por conta própria é fundamental#
Novas tecnologias surgem o tempo todo. Em cerca de 2 anos, a ferramenta mais comentada do mercado pode perder espaço, tornar-se deprecated ou ficar restrita a projetos antigos.
O que é um pesadelo para algumas pessoas é uma oportunidade para outras.
Quando uma tecnologia começa a crescer, a demanda por profissionais costuma aumentar mais rápido do que a quantidade de pessoas preparadas para trabalhar com ela. Isso ajuda a explicar por que profissionais muito jovens conseguem alcançar salários altos em pouco tempo.

É importante entender esse ciclo.
Você quer estar na maioria inicial.
Quando uma tecnologia entra em evidência, surgem vagas, cursos, projetos e empresas interessadas nela. Depois, o mercado amadurece. Algumas ferramentas permanecem, outras perdem espaço e muitas passam a sobreviver principalmente em sistemas legados.
Por isso, vale acompanhar o que está em alta, mas sem esquecer uma regra:
O hype passa. A base permanece.
Atualize-se sempre, mas mantenha o foco nos fundamentos.
Sou desenvolvedor full-stack, trabalhei durante um período com foco em frontend e me especializei em Angular quando o mercado estava dividido entre Angular e React.
Com o tempo, o React ganhou mais espaço. Se todo o meu conhecimento estivesse preso ao Angular, eu teria reduzido minhas opções de trabalho e ficado dependente de uma quantidade menor de vagas, muitas delas ligadas a projetos legados.
A transição foi tranquila porque minha base não dependia de um framework. Era JavaScript, lógica de programação, algoritmos, estrutura de dados e conceitos de engenharia de software.
O mesmo aconteceu antes, quando o Angular crescia enquanto o jQuery perdia espaço. O ciclo se repete.
O hype pode acelerar uma carreira. A base é o que permite continuar crescendo quando ele acaba.
A polêmica das tecnologias#
O que você deve estudar?
Antes de qualquer linguagem ou framework, estude lógica de programação.
Sem uma boa base de lógica, você pode até aprender a repetir exemplos, mas terá dificuldade para entender o que está construindo e resolver problemas que ainda não viu.
Depois disso, escolha uma linguagem.
Minha recomendação é JavaScript.
É uma linguagem extremamente versátil. Com JavaScript, você pode trabalhar com aplicações web, servidores, aplicativos móveis e aplicações desktop. Também encontrará uma comunidade enorme, muito conteúdo e uma grande quantidade de oportunidades profissionais.
Eu escolheria outra linguagem apenas se você já tivesse uma área muito específica em mente. Python, por exemplo, costuma ser uma escolha melhor para ciência de dados e machine learning. C++ aparece com frequência em desenvolvimento de jogos, sistemas embarcados e aplicações que exigem maior controle de desempenho.
Se você ainda não sabe exatamente qual caminho deseja seguir, JavaScript é um ótimo ponto de partida.
Mas atenção: escolher uma linguagem não significa construir sua identidade inteira em torno dela. Linguagens são ferramentas. Aprender a programar é mais importante do que aprender apenas a usar uma ferramenta.
Conseguir o primeiro emprego é tão difícil quanto parece#
Conseguir a primeira oportunidade é difícil.
O lado bom é que tende a ficar muito mais fácil depois dela.
No começo, duas coisas são extremamente importantes:
- Ter experiência.
- Conseguir demonstrar essa experiência.
A primeira pergunta costuma ser inevitável: como ter experiência sem nunca ter trabalhado na área?
Crie projetos próprios.
Sempre que estudar alguma coisa, tente aplicá-la em um projeto. Não precisa ser uma ideia revolucionária nem uma aplicação pronta para receber milhões de usuários. O objetivo é transformar conhecimento abstrato em algo que funciona.
Publique esses projetos no GitHub. Escreva um README explicando o problema, as decisões e como executar o código. Mostre o resultado para os entrevistadores.
Isso realmente faz diferença.
No começo, lá pra 2016, eu não tinha prática com Git. Deixava meus projetos na máquina.
Eu atravessava a cidade levando meu notebook na mochila para cada entrevista e mostrava pessoalmente o que havia desenvolvido.
Fui rejeitado várias vezes, até que alguém valorizou a iniciativa e me deu uma chance.
Mas sem romantizar. Seria mais fácil se eu tivesse uma conta no GitHub.
E mostrar que tem a experiência é tão importante quanto adquiri-la.
Prepare um bom currículo. Não trate isso como uma formalidade feita em vinte minutos. Dedique tempo a ele e destaque o que é relevante para a área em que deseja trabalhar.
Liste as tecnologias com as quais já teve contato, mas esteja preparado para explicar o que são, onde foram utilizadas e qual problema resolvem. Você não precisa ser especialista em todas elas. Precisa saber por que estão no seu currículo.
Acompanhe também as tecnologias que estão em evidência no mercado. Se você realmente estudou ou utilizou alguma delas, inclua-a. Isso ajuda seu currículo a passar pelos primeiros filtros e abre espaço para uma conversa técnica.
Crie um perfil no LinkedIn e cadastre seu currículo em plataformas de emprego.
Não espere dominar tudo antes de se candidatar. Parte importante do aprendizado acontece dentro do trabalho, com problemas reais, direcionamento e contato com pessoas mais experientes.
Não pague cinco mil reais em um curso#
Ou pague, tanto faz. O dinheiro é seu.
Mas saiba que, em muitos casos, um curso de cinquenta reais ensinará o mesmo conteúdo técnico.
Existe muito material gratuito, embora ele costume ser mais fragmentado ou superficial. Um bom curso pode economizar tempo, organizar o caminho e facilitar o aprendizado. Por isso, investir em educação quase sempre vale a pena.
O preço alto, porém, não produz milagres.
Nenhum curso garante emprego. Nenhuma formação transforma alguém em desenvolvedor sem prática. E nenhuma promessa de salário rápido substitui o tempo necessário para aprender.
Toda tecnologia relevante possui documentação. Leia.
Na vida profissional, um bom desenvolvedor precisará consultar documentação constantemente. Quem produz cursos e tutoriais também aprende lendo documentação. Você pode fazer o mesmo, de graça e diretamente na fonte.
Use cursos como atalhos de organização, não como substitutos da prática.
Sim, inglês é importante#
Você pode trabalhar durante anos sem precisar falar inglês numa reunião.
Mesmo assim, o inglês é o idioma predominante na tecnologia.
Pessoas de países diferentes escrevem código, documentação e discussões técnicas em inglês para que consigam colaborar. A sintaxe das linguagens costuma estar em inglês. Bibliotecas de terceiros usam inglês. Mensagens de erro, fóruns, documentação e ferramentas também.
Mas principalmente, muitos conteúdos são publicados primeiro em inglês e só depois recebem uma tradução. Em outros casos, a tradução nunca chega.
O desenvolvedor que sabe inglês vai acabar tendo um “acesso exclusivo” à informação, e assim sair na frente.
Mas não é uma barreira, você não precisa ser fluente no primeiro dia. É possível entrar na área com conhecimentos básicos e melhorar com o tempo.
Conclusão#
Entrar no mercado de tecnologia é um desafio grande, mas é um desafio que você precisa vencer apenas uma vez.
Depois da primeira oportunidade, a preocupação muda. Você deixa de tentar provar que consegue começar e passa a aperfeiçoar suas habilidades, ampliar sua experiência e escolher os caminhos que deseja seguir.
Tentei usar o mínimo possível de termos técnicos neste artigo. Se encontrou alguma palavra que ainda não conhece, pesquise. Jogue no Google. Familiarizar-se com o vocabulário faz parte do estudo por conta própria.
Tenha muita autoconfiança.
Nos primeiros meses, seus projetos provavelmente não parecerão profissionais. Você não construirá sozinho uma grande startup e não dominará todas as tecnologias do mercado.
Isso não significa que seu trabalho não tenha valor.
Se você consegue construir um projeto sozinho, imagine o que poderá fazer dentro de uma equipe, com direcionamento, estrutura e pessoas mais experientes ao seu lado.
Comece com o que você sabe. Mostre o que consegue fazer. Continue estudando.
E boa sorte.